segunda-feira, 12 de março de 2007

Todas as vezes ela abre o armário, pega tudo o que pode, e não devia, senta no chão da cozinha. Abre um pacote, outro e devora tudo o que consegue. Tudo o que não pode. O armário esvaziou. A geladeira. Água, muita água. Então ela pensa que não deveria ter começado. Ela come para não comer. E ela se arrepende para nunca mais precisar fazer isso de novo, mas não é possível, tome aquilo. Acontece de novo, todos os dias. E ela acha não aguenta mais até á próxima refeição, então percebe que vive com isso. Para isso. A melhor coisa que ela pode fazer. Não gosta, mas ama, precisa.
O que seria dela sem comer?
E não comer.
Quando ela percebe que acaba, vai ao lugar de sempre. É normal, é automático. Liga, pede aos céus que ninguém escute, sabe o quão doloroso pode ser. E começa. Naquela tenebrosa batalha contra seu próprio eu. O espelho a condena, todas as manhãs, tardes e noites, porém, não se deixa passar despercebido. Ela sempre para para odiar seu reflexo. A busca do novo eu.
Perfeição inexacta.
Ela realmente consegue na terceira, e depois não para. Cansa. Até perceber que não consegue mais, ou até consegue, mas não quer. Pois cansa.
E assim será. Um amontoado de dias, ela sabe que uma hora acaba, e não tem medo desta tal hora. Que chegue.
Mas não chega e ela cansa. Senta em baixo daquela água, e implora para qualquer coisa para não cometer a mesma estupidez de outra hora.
Ali ela permanece, em seu atormentado espelho.
Ali presa, até que escute:
Perfeição.

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