terça-feira, 31 de julho de 2007

Metade

Ele sentou na praça por apenas meia hora, e por apenas meia hora descobriu um mundo que jamais pensara existir. Era tudo ficção, eram apenas fatos, eram apenas datas, ele era o cara da meia hora, de meio pai e meia irmã. Nunca conheceu a mãe, e era tudo ficção, mães não existiam para ele, havia apenas um meio pai e uma meia irmã.
Aquela era a praça da meia hora, aquela estátua acima dele tinha apenas metade de um corpo – um busto -, o retrato bem falado de um meio herói, as pessoas não eram exatamente pessoas, elas eram algo indescritível.
Ele viu a ficção em forma de mendigo, ele viu a meia fome em forma de criança e ele viu a meia felicidade que nunca chegaria àquelas pessoas. Ele queria mudar isso ele queria ser inteiro, ele não queria ser o meio cara, queria ser o cara do qual todos falariam pelos seus bem feitos. Mas ele não poderia fazer tudo sozinho, ou então seria apenas uma parte do todo e ele queria ser inteiro. As pessoas passam correndo e a meia hora vai passando junto, só não pode correr porque não tem pernas e é apenas uma medida de tempo, e tempo era o que não faltava àquelas pessoas solitárias em cantos remotos de uma praça. O cara sentia toda a opressão situada ali, e quantas mais opressões existiriam pelas praças de meios bustos?
Ele nunca saberia exatamente, mas ele tinha a certeza que existiam outras meias pessoas sentadas embaixo de outros meio heróis, e estas também queriam o todo, e estas fariam algo por tudo, com tudo e para poucos. A minoria esquecida e sem emprego, a maioria do frio e da meia felicidade. Um pedaço de jornal voa e um meio sofredor nasce. É o destino afiado da ficção, é a realidade de um pedacinho de gente, é a meia utopia, é o desatar cordas.
A meia hora não é mais metade do tempo, o tempo não passa mais tão rápido, as idéias magoam e a hipótese de uma mãe retorna. Ele precisava contar para sua meia irmã, ele precisava pedir desculpas e precisava dela como todo. A meia hora já passou, as pessoas ainda passam e alguns sentimentos continuam intactos.
A ficção não é mais livro, não é filme, ela é presente em todas as praças de meia hora.
Ele agora foi ao futuro, foi buscar um outro destino, o meio herói cumpriu sua missão, ele fará parte do todo a cada meia hora.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O espartilho que se perdeu

Garotas não usam mais espartilho
As pequenas esqueceram de suas sapatilhas
Caneta? O que é isso?
Pin Up’s eram a pornografia inocente
Antes da chegada da playboy que conseguiu vulgarizar tudo isso
Elas eram as rainhas da época de Marilyn Monroe
Elas usavam batom vermelho e ninguém as condenava por isso
O futuro é o mesmo de sete anos atrás
Nenhuma idéia mudou
E o fim do mundo ainda não chegou, mesmo sendo anunciado há séculos
A revolução das máquinas nunca deu as caras, esqueceram da revolução dos bichos
Nosso carro não voa desde a década passada
Nossos filhos não são plantados
E os filmes não tratam mais da realidade
Somos o mesmo futuro de sete anos atrás
A idéia continua viva, os homens fazem guerras
E não moramos no céu
Não conquistamos nem mesmo o interior da nossa própria terra
Não comemos pilhas muito menos pílulas
Estudamos e não digerimos a informação
Que ainda é a mesma desde sete anos atrás
A realidade não muda.
Não queira ser comandado por um robô
Não seja você mesmo, porque você é como os outros
Que acreditam em máquinas
Estúpida máquina de dinheiro
Que compra carros que não voam
E que destrói sorrisos que não puderam existir em sua própria mente
Contratos são os atuais sonetos
Poemas são discursos presidenciais
A assinatura é a digital, cortada pelo verbo
Todos assinam suas sinas, esperando o verbo
Mas o verbo não é pilha, não é pílula, e não tem motor
Não tem asas, não faz casas e não é o céu
O verbo ficou no passado de donas de casa
O verbo gostava de conhecer todas as pessoas da cidade
A cidade costumava ser pequena
O rio era o local de encontro, para mães fofoqueiras e crianças bagunceiras
Pais bancários, filhos empresários e o doutor era comunitário
Isso era o verbo, que não quer você que não sabe o que é fazer algo com as próprias mãos, que não seja a morte [verbo].

domingo, 22 de julho de 2007

Minha luta de boxe

O rancor só me fez forte
E o medo não me foi nada
Eu não queria ser isso
E muito menos correr atrás de um sonho que não era meu
Eu amava meu melhor inimigo
E detestava ser contestada
Eu não vivi para viver
Eu não andei sem rumo
E eu não visitei quando deveria
Agora o que me resta?
O jogo da minha vida foi o começo da minha maior decepção
O melhor momento da minha vida eu achei imperfeito
No pior eu senti saudade do imperfeito
Buscando aquilo outra vez, sem mais desculpas ou monólogos.
O meu rancor é você
Eu nunca quero ser igual a você
Eu nunca mais quero sentir você
E pra sempre eu vou precisar de você
Como posso esquecer o tempo que ainda não passou?
Ou talvez o vestido mal passado que você usou
Quem será o que ao final da estória?
E porque você não é meu lápis?
Eu nunca serei a folha do meu desenho
Ou o rascunho mal feito
Eu só serei essa ali...
Aquela.
Que tem músicas sobre a própria vida
Que toma músicas como suas
E que não quer ser a outra
Mas acaba sendo o próprio espelho de uma pintura nada íntima
Tão íntima como uma escova de dente
E tão romântica como uma luta de boxe
Que droga de rancor você pôs em mim

sábado, 21 de julho de 2007

Até quando...?

Você só se acha esperto porque o resto do mundo é vulgar
O mundo só é vulgar porque todo o resto quer se achar esperto
Ninguém dá a mínima pra ti
Eu não ligo pro resto
É bom continuar fingindo que está tudo bem
É bom esconder aquilo...
Mas eles descobrem e eu faço mal.
Vai ser como todas as outras vezes e todos vamos esquecer
Até quando?

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Confusões

A parasitação da paráfrase
O parco parvo
O pastifício de prótons
O sedativo que seduz
O semibreve que é semideus
A última unidade do ultraje
A ufania do uivo
O tutor da tortura
O ato de lacrar um lacrau
A hecatombe humana
A mazela do materno
A máxima da miséria
O racionalismo sem raiva
O zodíaco sem zumbido
Desatinar um desacordo
A expressão de um extrato
O exvoto exuberante
O bioma bicolor
A fotocópia no frasco
A vida por um voto
O análogo sem analogia
A guerra da geração
O gracejo de gorar
E a forma de não se viver

terça-feira, 10 de julho de 2007

A minha porta

Uma porta [ponto]
É apenas uma porta, uma mera passagem entre aqui e ali. A minha porta, a porta em que eu me achei cheia de segredos e mistérios. A porta que nunca abri e sempre tive curiosidade em saber o que havia do outro lado. Aqui e ali, e a única coisa que me separava neste misterioso ali era uma pequena porta. Desde pequena eu convivi com ela, e sempre e nunca queria abrir, se eu abrisse o que eu faria depois? Não seria mais meu segredo e eu não sonharia com tal mistério.
O enorme campo e a porta ao final, em um muro. Quando eu era pequena ficava imaginando se ela fora feita para anões de tão pequena, mas eu nunca soube. Poderiam ser anões e a porta me levaria ao bosque da Branca-De-Neve, eu sempre quis que isso fosse real, pois assim poderia passar a tarde tomando chá com a princesa e seus anões.
Eu sentava ali, e ficava a tarde toda sonhando como não sonham os adultos. [ponto]
Às vezes, eu imaginava se aquela seria a porta da Alice, sabe aquela Alice, no país das maravilhas. Ela me levaria a este mágico mundo de cartas e coelhos? Eu realmente quero que isto seja verdade. Na época em que sonhava com isso, era pequena e podia alimentar sonhos impossíveis, hoje cerca de dez anos depois, ainda não abri a porta e não perguntei a ninguém o que há por de trás dela, afinal eu ainda quero isto como meu segredo e ainda gosto de sonhar com meu mundo de Alice e princesas. A única diferença é que talvez hoje eu desenhe meus sonhos e também os escrevo.
Eu vou tirar uma foto da minha porta, a minha somente minha. E a colocarei aqui para que todos possam ver e talvez imaginar o meu mundo de Alice. [ponto]
Eu ainda serei uma boneca.

sábado, 7 de julho de 2007

[ponto]

[Novembro sempre chega.]

Um dia sem dormir. [ponto]
Não há muito em que pensar não há mais nenhuma forma de agir.
Pânico. [ponto]
A respiração é pesada e há algumas páginas preenchidas, folhas do dicionário copiadas e desenhos bem acabados, orgulho. [ponto]
Amigos e tempo desperdiçados
Palavras lidas e bem compreendidas
Mágoas. [ponto]
Um novo tempo novas formas de encarar a mesma realidade
A terapia vai bem [ponto]
Até quando eu vou conseguir não demonstrar sentimento algum? Até quando eu vou conseguir acreditar que está tudo bem e que sempre passará?
Holly [ponto]
O era uma vez...